Os donos dos afetos
Os donos dos afetos
Uma boa parte daquilo que hoje tratamos como sentimentos, eram potências divinas no mundo grego e romano. Os chamados “processos de subjetivação”, que Hegel e Nietzsche foram mestres em analisar, e que depois, no século XX, ganharam mais olhares a partir de Heidegger e Foucault, nos ensinaram a ver como que a filosofia refletiu o andamento da cultura na direção de “trazer para o interior” os deuses. Só assim nasceram os “sentimentos modernos”. Alguns dos sentimentos antigos desapareceram ou foram desvalorizados. Enquanto isso, aquilo que tinha vida objetiva, e não era propriamente um sentimento e, sim, uma praxe social ou uma condição humana, caiu para dentro da alma. A própria alma veio a se espiritualizar, deixando seu caráter corpóreo, como tinha em Aristóteles, para adquirir seu caráter imaterial, como se afirmou com uma parte do cristianismo, chegando ao apogeu na filosofia de Descartes.
Assim, coisas como o amor, que dependia da força de um demiurgo, Eros, hoje é algo da vida íntima, um sentimento “do coração”. Com isso, os padres se tornaram os donos do amor, uma vez que eles se promoveram como os donos das almas. Com o aparecimento da ciência moderna, o amor tem paulatinamente abandonado a metáfora do coração para se localizar na mente – é agora um estado mental. Assim, médicos e psicanalistas, roubam dos padres aquilo que eles roubaram do pagão Eros. Agora, são esses profissionais das ciências, como donos da mente, os que podem falar do amor.
De Eros para os padres e destes para os psicanalistas, passando pelos médicos, o amor sempre foi propriedade de especialistas, nunca os próprios envolvidos nos dramas do amor puderam, eles próprios, botar a mão nessa empresa. É claro que literatos, poetas e filósofos tentaram quebrar esse monopólio. É claro que os próprios amantes, muitas vezes, buscaram a solidão para não ter que perder, para os homens do monopólio, o que lhes era caro. Mas, todas as vezes que isso ocorreu, os donos do amor ou, mesmo, de todos os afetos, criaram mecanismos para que o monopólio não fosse arranhado. Ou apelaram para o poder de estado, com a censura, ou fizeram o inverso, apelaram para a imprensa, fazendo coro com a liberdade, ou melhor, certo tipo capcioso de liberdade.
No momento atual, a “Santa Aliança” que está se formando para proteger o monopólio dos afetos e, principalmente, o monopólio do amor, inclui os psicanalistas, os puritanos de sempre, os advogados da sociedade do trabalho e, agora, a imprensa. Vestem diversas capas, mas o objetivo é o mesmo – o amor não pode sair do seu controle. Vestem a capa do “combate a crimes sexuais”, a capa do combate à “prostituição infantil” e, principalmente, a mortalha da “campanha contra a pedofilia”. Arrebanham nessas atividades muita gente mal amada, ou gente traumatizada pela violência, mas nenhuma pessoa com consciência crítica. Mobilizam a energia de pessoas infelizes no sexo e, portanto, prontas para gastar a energia em outras coisas, para gerar o terrorismo contra o amor sexual. O objetivo é um só, a “Santa Aliança” não pode perder o controle dos indivíduos. Nada além daquilo que Marcuse ensinou em seu tempo: a sociedade do trabalho não pode conviver com os que, buscando o prazer, desprezam horários, disciplinas malucas, repressões de toda ordem e, assim fazendo, mostram que a felicidade é irmã gêmea do prazer.
Epicuro e outros hedonistas foram execrados na medida em que, em uma época de transição, quando os deuses começaram a perder espaço para os processos de subjetivação, quiseram trazer o amor e coisas do tipo para os amantes. Quando a Renascença e, depois, o liberalismo, quis dar continuidade a isso, já o fez sob regras que não tardaram em ser parecer com as de agora, as da “Santa Aliança”.
O Brasil de hoje está sob o domínio dessa “Santa Aliança”. O psicanalistas oficias aparecem na TV e, ao lado de jornalistas que fingem estarem espantados, como se fossem jovens de 12 aninhos, travam uma conversa louca sobre o episódio do pai italiano que, no Ceará, beijou sua filhinha de oito anos e foi preso. Houve desconfiança dos que estavam ao seu redor de que ele seria um pedófilo. Caso a criança não fosse filha, fosse uma sobrinha, e o tio pagasse uma coca-cola para a ela, na certa iriam acrescentar também o crime de “incitação à prostituição infantil”. Caso o tio quisesse, ainda que junto com a mãe, sair do local da denúncia, talvez as pessoas começassem a gritar em “sequestro” e “tráfico de escravas brancas”. A “Santa Aliança” não quer perder seus cativos.
Por que tudo isso? Por uma razão simples: o moralismo não consegue mais controlar as pessoas, para que elas abandonem o prazer e, cabisbaixos, voltem para a fábrica, para o escritório, para a ditadura do cartão de ponto. Então, quando a pressão moral internalizada afrouxa, é necessário recolocar leis. Mas leis caducas não pegam. A “Santa Aliança” sabe disso. Daí as campanhas. Todas essas campanhas contra a pedofilia e a prostituição infantil são inócuas. São irracionais. Ninguém começa a gritar para pegar bandidos. Quem grita, espanta o bandido. O serviço da polícia, para desmontar tais redes, precisa ser sigiloso. Ora, então, se é assim, porque as campanhas? Ah, elas não são fomentadas pela polícia. Elas vém da “Santa Aliança”. Elas possuem outros objetivos. É a caça às bruxas, para afastar as pessoas do exercício livre do amor. A partir da campanha, cada pai e cada mãe começarão a pensar duas vezes antes de beijar o filho. Eis aí o terrorismo. Eis aí o odioso terrorismo que irá afastar todos nós uns dos outros, inclusive de nossos filhos. A “Santa Aliança” poderá, então, controlar tudo. Pois, no fundo, ela não tem nenhum sentimento nobre, ela é apenas fruto do reino da necessidade, não do reino da liberdade.
No início, cada pessoa pensa assim: “ora, bolas, eu sei o que fazer com meu filho ou filha, e como sou um pai dedicado ou uma mãe carinhosa, jamais vão me denunciar injustamente de nada”. Mas isso não é verdade. Pois veja o caso do italiano, lá no Ceará. Ela beijou a filhinha de oito anos. A mãe, brasileira – brasilieiríssima – estava ao lado, tranqüila. Pensava ela: “ah, que gostoso estar aqui no meu país, meu marido é estrangeiro, gosto da Itália, mas aqui é meu país, meu mundo”. E eis que, no seu mundo, junto dos seus, ela viu seu marido e sua filha ir para uma delegacia. O marido foi para trás das grades, a filha, de oito aninhos, foi para o trauma de ter de salvar o pai em um interrogatório doido. Mas o que ela deve responder para salvar o pai? Ela mesma não sabe. Ora, e quem de nós saberia? Afinal, como imaginar que, no Brasil, o beijo está proibido?
O pior de tudo são os jornalistas da TV, que se perguntam: “qual o meio termo que teremos de encontrar”. Ora, que bandidos! Meio termo para beijar? Meio termo para beijar filho! Onde estamos? Chegamos na pior das ditaduras, a ditadura em que cada cidadão ao lado pode acusar você de crime, o fantástico crime do amor.
Cada um de nós que se omite nisso, que deixa essas campanhas da “Santa Aliança” continuar, achando que estão fazendo um bem social, achando que por detrás dessas campanhas não há Ongs esquisitas e dinheiro envolvido – inclusive dinheiro público –, colabora com o terrorismo contra os afetos. A “Santa Aliança” é poderosa. Vocês verão até por conta da reação contra este meu artigo. Mas, o que eles não sabem, é que a missão do filósofo é esta mesma, a de estar junto da liberdade. Nisso, não desisto jamais. Caso vocês decidam fazer a Santa Aliança correr, não é difícil vencer não. O poder que ela tem depende de uma campanha contrária. Pode-se fazer isso. Deve-se fazer isso. Pedofilia e prostituição infantil é caso de polícia, caso de investigação, não é assunto para gritaria. Não participe do proselitismo em favor das campanhas da “Santa Aliança”, e comece a ser crítico sobre a TV e os jornais, pois eles estão, não raro, nesse barco do “caça às bruxas”.
© Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo
São Paulo, 4 de setembro de 2009
Portal: http://filosofia.pro.br
Sasha é filha da Xuxa. Sasha faz filme com a mamãe. Sasha tem 11 anos. Sasha escreveu no seu twitter a palavra “cena” com “s”. Xuxa ficou brava com os críticos. Xuxa deu a desculpa: a Sasha foi alfabetizada em inglês.
premiação da capacidade intelectual do professor, avaliada em provas regulares e individuais. O professor do ensino de crianças e jovens no Brasil não pode ganhar de modo tão diferente do professor universitário ou de outras profissões que requisitam educação universitária. Todavia, sua ascensão na carreira, como a do professor universitário (ao menos em princípio), deve correr pelo leito da sua demonstrada competência no domínio dos conteúdos intelectuais aos quais tem o direito, por lei, de ensinar.
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