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Sou uma estrela, caro Bill


Em 1880 a Família Real Portuguesa veio para o Brasil. Por que?  Simples: Napoleão Bonaparte estava anexando a Europa toda à França. Em cada lugar que entrava, destituía o rei ou qualquer outro governante e empossava um parente seu ou um seu general.  Buscava criar um grande império. Todavia, não um império conservador, mas, quase de modo paradoxal, o que ele desejava era a “exportação da Revolução Francesa”. Enfiava goela abaixo dos resistentes as palavras símbolos da França revolucionária: “liberdade, igualdade e fraternidade”. Em cada país que chegava queimava os cartórios e, assim, desvinculava os servos dos feudos, instaurando pela força as relações econômicas modernas, em que todo trabalhador é livre para vender sua força de trabalho para donos de indústrias, casas comerciais e bancos. Não à toa, o filósofo alemão Hegel viu Napoleão como “o Espírito à cavalo”. Napoleão havia incorporado o “espírito do tempo”, a determinação de fazer o mundo ser o que deveria ser, a saber: a modernidade mais ou menos como a conhecemos hoje.

Quando Napoleão foi derrotado e, em cada país que ele havia invadido, se fez a “restauração” do regime anterior, já era impossível voltar o tempo. A Europa havia sido remodelada. Napoleão havia tornado a modernidade um processo irreversível. Com canhões fez dos tão glorificados ideais da França revolucionária os ideais de todo o Ocidente.

Foi assim que o mundo ganhou a doutrina política do liberalismo. Menos por amor a ideais humanitários do que pela energia do furacão regido pela Marselhesa e por baionetas. O liberalismo econômico moldou a mentalidade dos ricos, os burgueses que, enfim, aos poucos foram comprando tudo dos nobres e os deixando, em alguns lugares, apenas com títulos carcomidos, dívidas e a fama de vagabundos e parasitas sociais. O liberalismo político, por sua vez, deixou de ser mera doutrina inglesa para se revestir de perfume parisiense barato e se colocar como o horizonte de uma classe média crescente. Esse liberalismo se fundiu com a idéia de democracia e, em alguns lugares, deu margem para doutrinas libertárias, socialistas e feministas. Para a classe média e também para os pobres esse conglomerado doutrinário significava a liberdade individual de oferecer seu trabalho onde este fosse necessário. E não só! Junto veio a esperança de cada homem de ser julgado em tribunais que prometiam fazer uma justiça muito mais igualitária do que as tomadas de decisão idiossincráticas de reis, príncipes e senhores feudais.

Mas o liberalismo prometeu mais que isso. Ele deu ao homem moderno condições de se imaginar de um modo bem diferente de tudo que havia ocorrido no passado com os pobres. A classe média e os pobres acreditaram em uma fantasia, bem necessária para viver, assim resumida: a liberdade individual pode ser usufruída por cada um de um modo novo. As pessoas não se contentaram com a igualdade perante a lei, quiseram igualdade de condições para iniciar a vida, de modo que a liberdade, em dado momento, pudesse realmente ser exercida. A democracia é que fez com o liberalismo desse margem para essa fantasia.

A idéia se ser alguém destacado de outros se espalhou pela Europa e, é claro, ganhou seu melhor lar na América. Quando, no século XX, surgiu o cinema, o escritor Walter Benjamin comemorou de um modo significativamente democrático. Ele ficou feliz porque muitos jovens que buscavam se destacar no teatro, e que não teriam chance por conta do tipo restrito de produção dessa forma de arte, iriam conseguir um lugar no palco cinematográfico. O cinema filmava muitos em pouco tempo. O cinema ampliava ainda mais a idéia de ser uma pessoa individual, uma espécie de supra sumo do liberalismo – uma estrela.

Passamos o século XX embalados nesse sonho. Muitos ficaram tão enraivecidos por não terem tido as promessas do liberalismo postas em prática para eles que optaram por revoluções que os livrassem desses sonhos. Assim veio o comunismo e o fascismo.  Mas quando, ao final do século XX, o comunismo acabou de vez, um homem esquisito com um nome cuja tradução nos daria o que pensar, criou a máquina de realizar sonhos dos primórdios liberais. Bill Gates empurrou de vez a Internet.

Alguns dizem que a Internet trouxe uma “outra cultura”, bem mais narcísica. Sim, é claro. Mas nada que não fosse uma revolta contra os sonhos liberais prometidos e não efetivados. Quando das primeiras comunidades de e-mails no Yahoo, alguns se incomodavam com o fato delas não serem públicas, e sim de seus criadores. Queriam que o espaço fosse público, todo ele. Mas a idéia de comunidade era a idéia liberal de que uma pessoa convida outras para uma festa onde ela, a que convida, é a estrela. Veio então o Orkut. Ridicularizado no início pelos que, costumeiramente, cobram humildade dos outros, essa rede superou esse entrave e se transformou em uma febre. Nos países menos sufocados pela idéia de humildade – uma idéia cristã francamente antiliberal –, essas comunidades não tiveram o mesmo número de pessoas que nos países de cultura ocidental, ávidos de realizarem a promessa liberal não realizada no plano sócio-político. Por isso mesmo o Orkut se tornou, particularmente, uma rede com êxito no Brasil. A promessa liberal de cada um ter seu espaço, de poder “ser alguém”, encaixou de modo espetacular na idéia brasileira do Orkut. Posso não ser nada no mundo real, pois o liberalismo me tapeou, mas no Orkut eu “sou alguém”. A cultura da autofotografia, inclusive no espelho, invadiu o Orkut e similares e deixou de ser chamada de narcisismo para vir a ser algo completamente normal. Todas as idades aderiram. Isso veio para o Twitter com força vulcânica.

Assim, as idéias de saúde, beleza, corpo saudável e disposição se atrelaram à caricatura do “descolado” e, enfim, à imagem do que não é artista, mas, como pessoa normal, pode ser artista na Internet. Ser artista no Big Brother, então, passou a ser parte desse cultivo do sonho liberal de ser estrela sem ter qualquer outro talento senão o de ter um corpo físico que ocupa o mundo. O liberalismo prometeu isso. Então, eis a ordem que restou: que a Internet e a TV remodelada sob a máquina de Gates realizem o prometido como puderem. O nosso entretenimento, ao menos da classe média e de parte dos pobres passou a ser a observação de nós mesmos. É como se, finalmente, pudéssemos todos nos ver, nos filmar, nos modelar e, assim, nos comportar como estrelas. Nossas casas e até nossos banheiros viraram palcos. Entramos no Twitter e conversamos abertamente sobre tudo o que é privado, para que todos os outros nos notem. A privacidade burguesa não é mais um valor. Ao contrário, recolher-se à privacidade é simplesmente resignar-se ao fracasso do liberalismo. Não! O mundo atual é o da vitória da promessa liberal, ainda que de modo completamente caricaturesco – mas isso pouco importa! Somos estrelas, como não? A garota bonitinha se transforma no pitéu mais cobiçado que qualquer grande artista de cinema por meio de uma fotinho diminuta, onde ela se põe de lingerie no seu avatar. E eis que, então, surge o Formspring. Cada um, tendo ou não algum talento, pode ser entrevistado como se estivesse no talk show de Jô Soares. 

Num mundo assim, Amauri Jr e a Revista Caras são glorificados ao mesmo tempo em que se tornam completamente supérfluos. Em um planeta montado por Bill Gates, ninguém mais quer viver em situações coletivistas. Locke perpetrado em caricatura se torna mil vezes melhor do que qualquer revolucionário que queira instaurar regimes coletivos. O sucesso de Che Guevara como camiseta não é o êxito de um romantismo pelo socialismo ou pela utopia coletivista, mas o cultivo da estética do homem de boina olhando para o nada. Foto de Orkut ou avatar de Twitter – é por se parecer com isso que Guevara sobrevive, sua figura como indivíduo é que anuncia o que é o desejo atual.

Por fim, o Youtube. Neste caso, o próprio subtítulo diz tudo: “broadcaster yourself”. Lance-se! Projete-se. Apareça! Faça comédia Stand Up e seja artista quando você quiser, e o mercado dos olhos que o julgue. Os libertários podem comemorar tudo isso; mas que se saiba que tudo isso é a forma que encontramos não de realizar as promessas do liberalismo, mas de realizar como pudemos algo que os teóricos do liberalismo acreditaram que seria realizado de modo mais fecundo, por alterações políticas, não por alterações tecnológicas. Napoleão entregou tudo nas mãos de Gates e este colocou Locke como um vitorioso.

Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo – perguntas aqui ó: http://formspring.me/ghiraldelli

- Não esqueça, dia 31 de março, 19 horas, lançamento de A aventura da filosofia, de Ghiraldelli, na livraria Cultura do Conjunto Nacional, na av. Paulista. São Paulo.

- O Programa Hora da Coruja, com os filósofos Francielle Maria Chies e Paulo Ghiraldelli passa para a All TV, sábado às 12:30.  http://alltv.com.br





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